06 de Agosto de 2018, 07:42
  -  Sem Caterogia - Ceres
Conheça a história do morador do DF que assassinou ex-ditador sírio
Hoje, a Síria esteve sob o controle de uma série de ditadores. Deposto, um deles buscou abrigo no Brasil. Comprou uma fazenda no interior de Goiás, onde se fixou com a família e morreu assassinado a tiros, em 1964. O autor dos disparos, um sírio radicado no Brasil, da religião drusi, cujos integrantes haviam sido perseguidos quando o ex-presidente morto esteve no poder, morava no Distrito Federal, onde continuou até o fim da vida.
 
 
O episódio é lembrado pelos mais antigos moradores de Ceres, município goiano a 270km de Brasília, cenário da execução. O Correio esteve na cidade de 22 mil habitantes e também ouviu de imigrantes sírios residentes em Brasília e Belo Horizonte detalhes do assassinato. O jornal conserva fotos de alguns dos protagonistas, publicadas pela revista O Cruzeiro, dos Diários Associados, mesmo grupo do Correio.
 
 
Confira a reconstituição desse histórico e bárbaro caso, desconhecido pela maioria dos brasileiros.
 

General golpista

 

Mohamed Adib Chichakli nasceu em Hama, na Síria, em 16 de janeiro de 1909. Fez carreira no exército, assumiu o Ministério da Guerra e, por meio de um golpe militar, em 1950, tornou-se o quarto presidente da Síria, aos 40 anos. Em 1952, se manteve no cargo após eleições gerais. Da mesma forma como chegou ao poder, saiu dele. Colegas de farda o depuseram.
 
 
A partir de então, Chichakli deu início a uma longa fuga. Temia ser assassinado, como os antecessores. Liberta dos franceses em 1946, a recente história da Síria era marcada pela violência e pela instabilidade na disputa pelo comando do país. O segundo presidente, o também general Hossni Al-Zahim, foi morto em 1949. O mesmo fim teve o primeiro-ministro do terceiro governo, Monsein Al-Bazari.
 
 
Nos seis anos de presidência, Mohamed Chichakli dissolveu os partidos, fechou os jornais de oposição e bombardeou o enclave druso de Jabal al-Arab, causando uma matança. Militantes drusos juraram exterminar todos os Chichakli do sexo masculino. Nos anos 1960, havia 200 mil drusos no mundo, sendo 30 mil no Brasil, a maioria em Goiás e Minas Gerais.
 

Abrigo em Goiás

 

Chichakli fugiu para a Arábia Saudita e, de lá, para Paris, onde morava um filho. De 1954 a 1960, viveu entre a França e a Suíça. Conheceu uma alemã, Therese Flav, que se tornou a sua segunda mulher. Aconselhado por amigos, o casal se mudou para o Brasil. Passou oito meses no Rio de Janeiro. Com o dinheiro dado pelo amigo presidente da Arábia Saudita durante a estada naquele país, Chichakli comprou uma fazenda de 1.250 alqueires goianos, em Pequizeiros, antigo norte de Goiás, atual Tocantins.
 
 
Logo Chichakli percebeu ter feito mau negócio com terras ruins em um local pouco promissor. Novamente sob o conselho de amigos, ele se mudou para Ceres, município surgido de uma colônia agrícola no fim da década de 1940. Na nova cidade, o general tornou-se fazendeiro, plantador de arroz. Também abriu uma loja de secos e molhados na principal via urbana, a avenida Bernardo Sayão. Coube ao filho do primeiro casamento, o ex-oficial do exército sírio Nawafak Chichakli, administrar o mercado.
 
 
Mohamed Chichakli recebeu uma equipe da revista O Cruzeiro, em Ceres, em 1962. Ao repórter, afirmou que pretendia desfrutar de uma vida pacata no interior goiano, ao lado da mulher e dos filhos. Também deseja ver a Síria livre, em ordem e progredindo. Gostaria que “não fosse derramada mais uma gota de sangue árabe”. Em Ceres e região, só os mais próximos sabiam que aquele homem havia sido presidente. Poucos, a maioria sírios, tinham conhecimento de como ele havia conquistado o cargo e as atrocidades cometidas enquanto mandou no país.
 

Chute no corpo

 

O general levava a vida como queria até a tarde de 27 de setembro de 1964, um domingo, quando retornava da visita a amigos em Rialma. Após atravessar a pé a ponte de concreto que liga Ceres à cidade vizinha, Chichakli se deparou com outro sírio. “Tudo aconteceu em frente à casa onde eu jogava pingue pongue com amigos. Eles discutiram em sírio e o homem, desconhecido na cidade, começou a atirar em Chichakli. Corremos, cheguei perto e vi o Chichakli já morto”, recorda-se o goiano Valter Pereira de Melo, à época um estudante de medicina de 20 anos.
 
 
Chichakli levou cinco tiros à queima-roupa. Antes de fugir, o assassino tirou os óculos escuros, chutou o corpo da vítima, recarregou o revólver e saiu caminhando pela margem do Rio das Almas. No fim da noite, toda a região soube do crime por meio da Rádio Cultura de Ceres, menos os parentes do ex-presidente. A mulher e a filha Amália, de 6 anos, estavam a bordo do navio Normandie, saído da Alemanha com destino ao Rio de Janeiro. Nawafak retornava de uma viagem de carro ao Maranhão.
 
 
“Eu conhecia toda a família. De estatura média, forte, o senhor Chichakli era um gentleman. Falava sempre baixo. Eu era amigo do filho dele, que era meio esquentado, mas muito amigo do pai. A mulher do general era uma alemã alta e bonita e a filha deles parecia uma bonequinha que falava cinco línguas: árabe, francês, inglês, alemão e uma raspinha de português”, conta Valter de Melo, que, após concluir o curso de medicina, se tornou prefeito de Ceres por quatro mandatos e deputado estadual em duas legislaturas.
 

Sem direito a honras

Na manhã de 28 de setembro de 1964, Ceres acordou tomada por autoridades, jornalistas e policiais vindos de Goiânia, Anápolis, Brasília, Rio de Janeiro e Damasco, capital da Síria. Agentes de segurança estavam atrás do assassino, enquanto o cônsul da Síria em Anápolis, Barbahan Helon, tentava agilizar os trâmites para o traslado do corpo de Chichakli para o país de origem. Mas dois médicos legistas de Ceres concluíram não haver como o corpo ser embalsamado na cidade e ser necessário o seu imediato sepultamento.
 
 
Na manhã do dia seguinte, houve um cortejo pelas ruas de pedra e terra de Ceres, com o caixão carregado por amigos do ex-presidente. Nawafak, que havia chegado no fim de domingo, protagonizou o momento mais triste. Aos prantos, ele se ajoelhou e abraçou a urna mortuária do pai. Gritava por Mohamed. Pouco antes do meio-dia, ocorreu o sepultamento na Quadra 7, número 107, do Cemitério Verdes Vales, sem a presença da filha e da mulher do morto.
 
 
No entanto, o corpo ficou só quatro dias em terra goiana. O governo brasileiro enviou um professor de anatomia da Universidade Federal de Goiás à Ceres para fazer a exumação. Embalsamado, o corpo foi levado de carro para o Rio de Janeiro, de onde seguiu em um avião para Damasco. Na capital síria, Chichakli recebeu as honras de um ex-presidente, mas sem comoção popular.
 

História destruída

Apesar da exumação, o jazigo com a placa trazendo o nome e as datas de nascimento e de morte dele continuou intocado no Verdes Vales até dois anos atrás. “Era tudo original, até que, um dia, um homem decidiu comprar um terreno no cemitério, mas não tinha mais. Ele foi atrás da família dona do jazigo onde havia sido enterrado o ex-presidente. Ela decidiu doar o terreno. Destruíram o jazigo e fizeram a galeria, que comporta seis corpos, mas ainda não foi usada”, conta Alessandro Tosta de Oliveira, que há seis anos trabalha no cemitério de Ceres.
 
 
Logo após a demolição, Alessandro soube de toda a história que envolvia aquele jazigo antigo. Ele recuperou a guia de sepultamento de Mohamed Adib Chichakli e a colocou em uma moldura, fixada no minúsculo prédio da administração do cemitério, onde há uma sala, um banheiro e uma capela. Sem nenhum texto explicativo, é a única lembrança física do ditador sírio em Ceres.

Executados

Sem apoio popular, Al-Zahim foi derrubado após quatro meses e meio por seus colegas al-Shishakli e Al-Hinnawi. Este assumiu o poder como líder de uma junta militar e enviou Al-Zahim a uma prisão em Damasco e mandou executá-lo com o primeiro-ministro Al-Barazi.
 

Crime tramado em Minas

 

“No dia 24, antes de viajar para Ceres, Nawal Ben Youssef Ghazal despediu-se emocionadamente de um amigo, dando a entender que talvez nunca mais regressasse”, informou a revista O Cruzeiro, na reportagem intitulada O ódio não esquece, publicada na edição de outubro de 1964. De origem síria e com 34 anos, Nawal morava em Taguatinga e trabalhava como ambulante. Ele deixou a cidade em 24 de setembro de 1964. Pegou um ônibus com destino a Anápolis e, lá, tomou outro até Rialma. Estava determinado a vingar seu povo, os drusos.



Há nove anos no Brasil, Nawal conhecia Rialma e Ceres. Havia visitado ambas as cidades duas vezes, a negócio. Na terceira, porém, precisava conhecer a rotina do seu alvo, Mohamed Adib Chichakli, o ex-presidente refugiado em Ceres. Nawal desembarcou em Rialma na noite do dia 24 e hospedou-se na Pensão Marly Acordou, tomou o café, ganhou a rua e atravessou a ponte que separa Rialma de Ceres. Na cidade vizinha, iniciou a busca por informações do general Chichakli.



No terceiro dia de pesquisa, Nawal se encontrou casualmente com o fotógrafo responsável pelo registro dos principais eventos sociais de Ceres. Sem dizer a intenção, o sírio perguntou sobre o conterrâneo Chichakli. Do bate-papo saíram informações preciosas para o ambulante, como o endereço do ex-presidente e o hábito de ele atravessar a ponte a pé aos domingos para visitar e almoçar com amigos em Rialma. Antes de dormir, Nawal comprou uma pasta do tipo “reco-reco” — como chamavam à época — para esconder o seu revólver calibre .38.



Segurando a pasta, Nawal deixou a pensão no início da tarde de 27 de setembro de 1964. De calça, camisa de mangas compridas, paletó e óculos escuros, ele seguiu para a ponte. Ficou horas à espreita. Por volta das 17h daquele domingo, quando estava prestes a desistir, avistou Chichakli vindo em sua direção, distraído e sozinho. Mantendo uma distância curta, Nawal seguiu o general até abordá-lo, ao pisarem no território de Ceres. Discutiram. O ambulante sacou o revólver. Chichakli tentou se esconder em uma casa, mas foi atingido por um tiro. Caído, levou outros quatro. Nawal chegou perto para conferir se a vítima estava morta. Ao ter certeza, chutou o corpo.

 

Fuga com amigos

 

O assassino caminhou à beira do Rio das Almas até o morro próximo da ponte, ainda em Ceres. Parou para descansar. Desceu, atravessou a ponte novamente e seguiu para a pensão em Rialma. Após um banho, trocou de roupa, jantou e saiu. Dessa vez para assistir a um filme de faroeste no cinema da cidade. Ficou até o fim da sessão, retornou à pensão e só deixou Rialma na manhã seguinte. Tomou um ônibus até Anápolis, onde, depois de desembarcar, foi ao encontro de três amigos sírios. Pediu ajuda. Disse precisar ir imediatamente para Belo Horizonte, para não perder um negócio.



Desconfiado, o trio quis saber o real motivo da pressa. Bateram boca até Nawal sacar o revólver e convencer, sob ameaça de morte, os três a entrarem no carro de um deles e pegar a estrada. A viagem durou quase 20 horas. Os amigos deixaram Nawal na rodoviária interestadual da capital mineira. O fugitivo pegou um ônibus para Teófilo Otoni, no interior, onde se encontrou com parentes e outros integrantes da comunidade drusa no Brasil. A eles contou sobre o crime. Todos festejaram e prometeram apoiá-lo.

 

Festa na comunidade

 

Por meio de doações de sírios residentes no Brasil, que, em uma semana, reuniram 100 milhões de cruzeiros (a moeda da época), Nawal passou a contar com a defesa de alguns dos mais conceituados e caros advogados criminalistas mineiros, como o deputado federal e ex-ministro Pedro Aleixo e Nelson Hungria, um dos revisores do Código Penal Brasileiro e ministro do Supremo Tribunal Federal. Eles apresentaram o cliente à polícia uma semana após o crime. Nawal descreveu os detalhes sem remorso ou medo. Afirmou ter decidido matar Chichakli quando leu, em um jornal, que o ex-presidente havia sido anistiado.



“Matei Mohamed porque ele era impiedoso, um monstro. Durante o tempo em que esteve no poder quis, por todos os meios, exterminar os drusos, chegando na assassinar mais de 70 pessoas, inclusive crianças e mulheres gestantes. Quando soube que este homem, agora anistiado, poderia voltar à Síria, o sangue me subiu a cabeça. O povo brasileiro saberá entender que eu cumpri o meu dever, eliminando um grande inimigo do meu povo”, alegou, no depoimento prestado ao delegado responsável pelo caso, em Ceres.



Os investigadores desconfiaram da versão do assassino confesso. Suspeitavam que o crime havia sido planejado, da viagem de Taguatinga à fuga, por um grupo de drusos. Inclusive, tinham certeza de que os três amigos de Nawal o esperavam em Anápolis para ajudá-lo a escapar do cerco policial. Tanto que os prenderam antes de Nawal. Mas os três negaram saber de algo. Afirmaram, em depoimento, que Chichakli poderia ter morrido por causa de uma dívida financeira com Nawal, que não souberam descrever. Há duas semanas, quatro drusos radicados no Brasil, — dois em Brasília, dois em BH —, admitiram ao Correio, sob a condição do anonimato, que a comunidade deles em Minas planejou e financiou a execução do general, 54 anos atrás.

 

Sem arrependimento

 

Depois do interrogatório, ainda na delegacia, Nawal deu uma entrevista para jornalistas, incluindo um repórter do Correio. Tranquilo, sorridente, repetiu toda a história contada em depoimento e respondeu às perguntas sem titubear. Afirmou não ter se arrependido de nada. “Se preciso fosse, mataria 100 vezes o ex-presidente”, ressaltou. Sobre a cicatriz, explicou que era dos tempos em que lutava boxe. Depois do interrogatório e da entrevista, Nawal foi embora com os advogados.



Além de responder o processo em liberdade, os advogados do réu conseguiram transferir o júri dele para Goiânia. Dessa forma, Nawal se livrou de jurados que conheciam a vítima, respeitada em Ceres. A estratégia deu certo. No julgamento, realizado um ano e meio depois, o assassino confesso convenceu a maioria de que havia agido sob forte emoção, que os crimes cometidos pela vítima na Síria eram passíveis de punição no Brasil, por meio de uma vingança.



Nawal levou a vida como um ambulante até montar uma lanchonete em Taguatinga, onde era conhecido como Rachid, um “turco”. Morreu na segunda mais populosa cidade do Distrito Federal, em 16 de dezembro de 2005. A comunidade drusa levantou dinheiro suficiente para o traslado e enterro do corpo dele, na Síria, onde foi sepultado como herói do seu povo.

 

 

Imagens